sábado, 27 de fevereiro de 2010

O desafio


E o nosso duelo anda bem, obrigado. Não sei dizer se Fevereiro foi mai agitado que Janeiro, mas a galera não tá deixando a bola cair. Eu não vou conseguir atingir o meu objetivo de correr 7 Km por dia de média, principalmente por causa da dor nas costas que parece voltar sempre que corro maiores distâncias. E nesse final de mês assim que a dor melhorou eu fui derrubado por uma gripe terrível, mas que durou somente tres dias. No terceiro dia eu estava muito melhor... e pronto para voltar a correr. O quarto dia foi hoje.

Ontem a noite descobri que o Rodolfo me passou na surdina. Quando eu menos esperava estava eu lá tomando chapéu, Rodolfo com 141Km e eu com somente 140. E ele vai correr uma meia maratona amanhã. Eu tinha (e tenho) dois dias para correr mais do que os 21Km de uma meia, supondo que ele vai correr apenas a meia. O tempo em Toronto tem estado horrível para correr, tanto que mesmo se eu não tivesse pegado aquela gripe provavelmente não correria, ou correria muito pouco. Neve e muito vento e a temperatura subindo acima de zero fazendo a neve virar "wet snow" ou chuva. O chão fica um barro só, formado por neve meia derretida, meia congelada, alguns lugares bem lisos, alguns lugares somente neve fofa. Mas o sujeito ousadamente me passou, o troco teria que ser dado.

E decidi sair para um treino no começo do dia hoje, um daqueles treinos aleatórios, não sabia realmente o que ia acontecer, mas eu queria correr pelo menos 10Km para que amanhã eu conseguisse bater o Rodolfo com mais 12Km, caso ele corresse apenas a meia (vamos ser otimistas né). Saí por volta das 7 da manhã e de cara senti o vento frio no rosto, vindo junto com a tal da "wet snow" (é uma neve que quando cai ela derrete, uma neve pesada, uma neve que molha). Era seguramente o pior dia que eu já tinha saído para correr neste inverno, e eu percebi isso já nos primeiros 100m.

Logo os óculos estavam opacos com a neve, eu limpava com a luva, ficava melhor, mas ainda zoado. Eu continuei, ia correr de qualquer forma, queria correr e dependendo do caso faria o loop pequeno, voltaria para casa logo. O chão escorregadio fazia eu ser mais lento do que o normal, mas em sendo mais lento eu me sentia bem, eu não ficava cansado. A wet snow caindo e eu ficando molhado. Cheguei na Eglinton, o chão com aquele barro formado pela neve derretendo era um constante, em alguns lugares o sal havia derretido a neve que formava poças d'agua que ficava estancada pela própria neve, água suja, grossa, salgada, que eu pisava, logo meu tenis estava molhado, logo estava ensopado, logo estava fazendo chlep-chlep-chlep... Mas eu não sentia frio, pelo menos eu não sentia frio.

Resolvi cruzar a Yonge e dar tchau para o loop de 5Km. Agora indo até a Mount Pleasant já faria o loop de 7Km no mínimo. E eu me sentia bem, as pernas pareciam bem descansadas por todos estes dias parados, eu ia tranquilo, leve, não muito rápido pois o chão era imprevisível e por vezes nem se via o chão. E cruzei também a Mount Pleasante, dando adeus ao loop de 7 Km. O Rodolfo havia me passado, o troco seria dado.

A próxima seria a Bayview, virando ali o loop daria uns 10Km, mas eu não pensei em virar ali, passei. As pernas pediam chão, com ou sem neve, e eu corria alegre por estar voltando a correr, a neve parava de cair por momentos para voltar logo depois, a temperatura de 1 grau era muito agradável, eu me sentia bem ainda que molhado. Mas uma coisa não estava bem, nunca havia estado desde os meus primeiros 100m. Eu não via nada.Eu tinha dificuldade de ver o semáforo, não conseguia ler o nome das ruas. E quando a calçada não estava limpa eu nem sabia onde ela era. Por vezes eu passava a mão molhada, vestida de luvas, nos óculos, tantando limpá-lo, mas pouco adiantava. E às vezes ele ficava embassado. E ainda as vezes eu tirava os óculos, tentava correr sem e não via nada ao quadrado. Limpar os óculos foi uma constante durante o treino, foi a pior parte do treino, e sempre foi ineficiente.

Eu segui apesar de não ver nada. E passei a Laird, virando ali o loop seria de uns 12 Km. Passando a Laird eu entrava em terreno imprevisível, saia da parte mais central de Toronto, poderia encontrar calçadas cheias de neve, calçadas lisas, lugares sem calçada. Só os bons passavam a Laird e entravam em terreno desconhecido, em dia de neve. Mas eu passei e segui pela Eglinton incentivado pelo troco que deveria dar no Rodolfo e apoiado pela linha de ônibus que passava pela Eglinton, que eu poderia pegar a qualquer momento. Mas o momento não era para pensar em ônibus e eu segui.

Na semana passada eu havia passado a Laird também e havia entrado na Don Mills e havia me ferrado. A Don Mills segue bonita e convidativa. Depois a calçada some. Depois some tudo e você tem que correr no meio da rua, em trecho perigoso. Na Don Mills eu não entro mais nem em dia de sol, em dia de neve eu nem sei que ela existe. Passando a Laird, eu teria que passar a Don Mills também e ir até a Victoria Park, já em Scarbrough, um bairro na periferia. Entraria na Victoria Park, ali começa a O'Connor, que vai até a Woodbine e Danforth, então estou no metrô. Mas eu não via nada e pouco conhecia os lugares ali. Passei a Don Mills sem pensar e depois era achar a Victoria Park. Mas eu não estava conseguindo ver o nome das ruas. Foi depois da Don Mills e antes da Victoria Park, com uns 9 Km corridos, que eu tirei a foto acima. Estava bastante molhado, com um pouco de frio nas mãos pois as luvas estavam molhadas e as mãos esfriam facilmente.

Segui e logo encontrei uma rua, mas não conseguia ver o nome. Tive que perguntar para uma moça no ponto de ônibus se ali era a Victoria Park. Ela disse que não e eu segui.Até encontrar uma outra rua larga e não tinha ponto de ônibus com alguem dentro. Eu virei ali mesmo. Não era a Victoria Park. Mas eu não sabia e segui, passei por bairros residenciais com calçadas não limpas, com neve que afundava até a canela, mas eu segui sempre, tinha que sair em algum lugar, sabia que estava indo para o sul. Mais pra frente cheguei numa rua grande, a placa estava baixa, eu vi que era a O'Connor. Devia apenas seguí-la até a Woodbine e de lá até a Danforth, e foi o que fiz. Na Danforth eu tive acesso ao metrô, mas o Rodolfo precisava pagar e eu segui pela Danforth, agora voltando para casa.

A Danforth é movimentada e muito mais limpa, foi ali que encontrei a melhor parte para correr. Aumentei o ritmo, mas eu pouco conseguia ver, a neve continuava, eu estava muito molhado, o tenis cheio de água. Mas na Danforth eu corria para Oeste, eu voltava para casa e eu segui, determinado a correr pelo menos até a Broadview. Mas eu passei pela Broadview tambem, e eu não tinha idéia de quanto tinha corrido, nem do tempo pois eu não corro mais com relógio a tempos.

Passando pela Broadview e por mais duas estações de metrô eu chegava na Yonge e subindo pela Yonge por dois Km eu chegava de volta em casa. Mas cheguei na Yonge cansado, e o resto do caminho seria praticamente só subida. Eu resolvi parar ali mesmo, subir de metrô, eu sentia bastante cansaço nas pernas e eu tinha certeza que tinha corrido perto dos 20Km. Eu terminei totalmente molhado, temperatura de 1 grau e depois de parar o vento frio cortava a pele. Mas eu não pensava nisso, eu pensava que o Rodolfo ia correr meia maratona e eu já tinha corrido, eu pensava que eu tinha um dia a mais no mês para correr do que ele.

Mas Fevereiro não terminou, e o duelo continua. O meu percurso hoje deu 21Km e se o Rodonfo não correr nada alem da meia, eu ainda preciso de mais 2Km (isso não deve ser dificíl, cá entre nós), mas e se o Rodolfo correr mais do que a meia maratona? Cria se o suspense, eu não digo quanto vou correr amanhã (nem sei mesmo) e saberemos se o ousado Rodolfo recebeu o troco no dia 1 de Março, quando o resultado do duelo de Fevereiro será resultado final...

Aqui está o percurso de hoje.

2 comentários:

Mayumi disse...

Rrsrs. Que disputa acirrada! Mas, o Rodolfo não estava em recuperação? Rs. Que loucos!

Marcos Sanches disse...

O Rodolfo nunca tá de recuperação. A recuperação dele é quando ele corre somente 5 maratonas no ano... Igual o Hideaki, se o médico não pendura ele ele fica lá correndo uma maratona por dia...

O que achei legal nesse post, e o motivo de escrevê-lo é que enquanto eu corria eu pensava que devia continuar se quisesse bater o Rodolfo. E torcer para ele ficar no sofá. Ou seja, de uma certa forma, bater no outro é mais do que tudo bater em si proprio...